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Seja um exemplo

Não é raro encontrar pessoas que se espantam com o meu português. Todas dizem a mesma coisa: nossa, seu português é ótimo! E eu, modestamente digo: obrigada, não é nada de mais. Nesta semana encontrei um colega que, ao ler minhas crônicas, disse "Nossa, a Tati é a única surda que conheço que escreve um português melhor até do que um ouvinte." Fiquei lisonjeada.
Mas eu fiquei pensando no por quê delas se impressionarem e é porque sou surda. Falando assim dá a impressão que surdos não escrevem. Não é isso. Surdos escrevem um português diferente, cuja sequência de palavras é baseado na língua de sinais e as pessoas que estão acostumadas a conviver conosco (surdos), sempre se deparam com essa escrita.
E eu sou diferente, como diz um amigo, sou exceção à regra. Pode-se dizer que fui privilegiada. No entanto, se conhecer um pouco mais da minha trajetória na aquisição linguística dessa língua entenderá porque eu sou boa com as palavras.
Desde a minha tenra infância fui introduzida no mundo da narrativa, dos contos de fadas, minha família não possuía nenhum conhecimento científico de que apresentar a literatura na infância ajudaria meu futuro. Então, toda noite antes de dormir uma historinha era contada. Mais tarde, com 4 anos aproximadamente, ganhei uma coleção dos contos de fadas, tinha a Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Alibabá e os 40 ladrões, etc, etc e eu adorava, mas não sabia ler, ainda.
Aos 4 anos ingresso na pré-escola. Aos 5 perco a audição. Naquela época, essa não era idade para alfabetizar crianças, a alfabetização começava na primeira série, quando a criança já estava com sete anos. Mas minha professora não era como a maioria. Ela viu potencial em mim e quando eu perdi a audição, mudei meu comportamento social, o que era esperado, psicologicamente falando. Assim, aos 5 anos e meio ela passou a me alfabetizar. Tirava-me de atividades orais como música e dança (não que eu não pudesse dançar, mas individualmente tinha dificuldade para acompanhar a música)  para me ensinar a ler e escrever. Paralelamente a isso, tive acompanhamento fonoaudiológico e apoio familiar. Lembro-me que meu avô sentava comigo para ouvir minha leitura em voz alta e tinha uma palavra que eu não conseguia pronunciar corretamente, pois, na minha lógica, não entrava como que três letras distintas tinha o som de uma única letra, era o "que". Por um tempo eu pronunciava q-u-e. E meu avô sempre me corrigia, paciente. Mas nada disso teria efeito se eu não me esforçasse. Tenho um espírito muito determinado e com relação a estudo, sempre fiz o melhor. 
Certa vez, uma surda me disse: "Puxa vida, você teve sorte. Minha família não me ajudou em nada, por isso não sei ler." Eu olhei para ela e disse: não há idade para aprender, se você quer, se esforce, corra atrás de seus objetivos. E ela passou a dar mais atenção para a escrita e leitura, sempre que tinha dúvidas, me perguntava. 
Não quero que surdos me olhem e sintam inveja do meu português, quero que eles me olhem como exemplo. Se eu consegui, eles também conseguem. Não são só os surdos que aprendem tardiamente, muitos ouvintes também. É para isso que existe a alfabetização de jovens e adultos. 
No primeiro ano da faculdade de pedagogia, entre 2007 e 2008, tive um colega surdo que tinha uma dificuldade enorme em português. Tudo tinha de ser em Libras. Eu invejava sua facilidade com a língua de sinais e ele, fui saber mais tarde, invejava minha facilidade de escrita. Resultado: largamos pedagogia e fomos cursar Letras, durante o período de graduação ele melhorou sua escrita e compreensão da língua, enquanto eu melhorei minha fluência em Libras. Acabou que um serviu de exemplo para o outro. Viu só? Não perca tempo se lamentando sobre o que já passou, aproveite o futuro e invista nele. Seja um exemplo. 

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